Dilma diz que impeachment foi "uma guerra política suja e hipócrita" e não descarta candidatura em 2018

Em entrevista ao jornal Le Monde, publicada nesta terça-feira (6), a ex-presidente Dilma Rousseff disse que não descarta uma candidatura nas eleições de 2018. "Estou pensando", afirmou à correspondente Claire Gatinois, na segunda-feira (5), no Palácio da Alvorada, um dia antes da mudança para Porto Alegre.

Dilma afirma que o processo de impeachment foi fraudulento, fruto de "uma guerra política suja e hipócrita". "Os argumentos que levaram ao meu impeachment são pretextos. O fato de ter sido destituída sem perder meus direitos políticos demonstra que não há lógica nesse processo sem fundamento jurídico", afirmou.

"Para justificar meu impeachment, eles evocaram outros motivos, como 'o conjunto da obra'. Isso não é permitido pela Constituição. Não cabe a 81 senadores julgar a minha política, mas ao povo, através de eleições diretas."


Interromper a Lava Jato

Para Dilma, a motivação por trás do seu impeachment foi "interromper a operação Lava Jato e as investigações de corrupção, lavagem de dinheiro e caixa dois nas campanhas eleitorais". Ela diz que "nada disso justifica que os golpistas destituam um governo para impedir a hemorragia política ligada às investigações".


"O outro objetivo deles é implantar uma agenda neoliberal, que não fazia parte do nosso programa. Esse processo de impeachment é uma fraude, uma ruptura democrática que cria um clima de insegurança no seio das instituições políticas e que afeta toda a América Latina", disse a ex-presidente.

Perguntada se a sua política econômica teve impacto na sua baixa popularidade, Dilma disse que a crise mundial atingiu em 2014 os países emergentes, como Brasil, China, Rússia e África do Sul.

"Uma das reações à crise foi fazer uma política de austeridade, não para cortar os programas sociais, mas para preservá-los. O Brasil tinha e tem todos os meios para superar essa crise: grandes reservas e investimentos estrangeiros diretos. Mas houve uma sabotagem política visando criar um ambiente favorável ao impeachment, impedindo o Congresso de adotar medidas importantes", completou.

Oligarquia brasileira

Para a ex-presidente, "a protagonista do impeachment é a oligarquia brasileira: o grupo dos mais ricos, os meios de comunicação, que são propriedade de 100 famílias, e dois partidos, o PSDB e o PMDB e, em particular, Eduardo Cunha".

Dilma destacou que o PSDB perdeu quatro eleições presidenciais e que não teria possibilidade, segundo as pesquisas de opinião, de ganhar a de 2018.

A repórter lembra para Dilma que o PMDB fazia parte, antes da crise política, da base aliada do governo. A ex-presidente responde, então, que o partido foi fundamental para o processo de redemocratização do Brasil depois da ditadura.


"Mas, nos últimos anos, certos segmentos do PMDB, dos quais Eduardo Cunha era o líder, tornaram-se ultraconservadores nas questões sociais e morais e ultraliberais nos temas econômicos. A aliança com o PT se tornou contraditória. Mas o sistema político brasileiro, com 35 partidos, nos obriga a fazer essas alianças."

Ela reconhece que foi incapaz de aprovar reformas em 2013, mas se escora no ditado popular "é como se você pedisse à raposa para tomar conta do galinheiro".

Compreensão dos eleitores

A petista afirma compreender que os eleitores tenham ficado decepcionados com todos os partidos políticos, mas reitera que sem a ascensão do PT ao governo, em 2003, a Polícia Federal nunca teria descoberto o sistema de corrupção na Petrobras.

Dilma reafirma sua inocência ao diário francês, destacando que foi alvo de comentários machistas que a retratavam como "uma mulher frágil, doente e deprimida". Ela conclui dizendo que "a resistência deve ser feita por meio da crítica e do debate político": "Estamos no começo de uma luta, e eu estou otimista. A indignação está mais viva hoje no Brasil. O país vai crescer", estima.

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